Acontecendo

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Mulheres que retiraram mamas ganham coleção de lingerie e moda praia

A ideia da Associação Mulheres Vitoriosas é
comercializar as peças da coleção em todo o país
Divulgação
O projeto Eu Tenho Peito, coordenado pela Associação Mulheres Vitoriosas, no município de Campos dos Goytacazes, no Rio, acaba de lançar uma coleção de moda íntima e praia voltada para mulheres mastectomizadas, que tiveram câncer e fizeram remoção parcial ou total das mamas. As peças podem ser usadas também no período pós-cirurgia. O programa é apoiado pelo Programa Integração Petrobras Comunidades, que atua no entorno das unidades da estatal.

A presidenta da associação, Cristiane Souza da Silva Félix, que também teve câncer de mama, decidiu criar a entidade há três anos e, hoje, 213 mulheres são atendidas por profissionais voluntários. “A ideia partiu de minhas experiências pessoais, porque sou uma paciente oncológica. Enquanto paciente, observei que tínhamos lugares para fazer quimioterapia, radioterapia, ou seja, os tratamentos convencionais, mas não havia um local que pudesse reunir todas as necessidades psicológicas e emocionais de uma paciente oncológica. Então, escrevi um livro, contando minhas experiências durante o tratamento, e toda a venda eu reverti para alugar um local. Inicialmente, éramos cinco assistidas, colegas que fizeram quimioterapia comigo. Depois, o número foi crescendo”, disse Cristiane.

A atual sede alugada já está pequena para o total de associadas, afirmou. A instituição Mulheres Vitoriosas vive de parcerias e doações e abriga oito projetos, sendo um deles o “Eu tenho peito”. A criação do projeto resultou do incômodo de uma das assistidas, que sofria muito pela ausência das duas mamas, e que acabou morrendo. “Isso me incomodava muito”. Muitas mulheres nessa situação não conseguem conviver com o marido ou se reintegrar socialmente. Cristiane promovia desfiles anualmente, e algumas moças mastectomizadas não se sentiam confortáveis.

Nas roupas apresentadas, Cristiane colocava saquinhos de tecido com arroz, para preencher o lugar do busto, mas com o tempo decidiu pensar em algo melhor em termos de qualidade. “Foi aí que eu pensei na confecção de um sutiã com próteses internas de polietileno”. Uma equipe integrada por mastologista, oncologista, cirurgião plástico, “para poder trabalhar com o material certo, na quantidade certa”, além de estilista, ajudou Cristiane a criar um produto que está sendo patenteado e tem 'design'. A Petrobras entrou com patrocínio do material, da instrutora e de três máquinas para a confecção das peças.

“Ao longo do tempo, vi a necessidade de trazer um conforto, qualidade, algo que tivesse a credibilidade do povo feminino mastectomizado. Então, entrei em contato com esses amigos”. No dia 29 de outubro, a coleção de moda íntima e de praia com essas características foi lançada, “onde a mulher mastectomizada tem, podemos dizer, um guarda-roupa de lingerie que tem camisolas, tem corpetes, calças e sutiãs de renda. E também lancei a moda praia”.

A ideia é beneficiar mulheres com câncer de mama em todo o país. Números do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) revelam que o câncer de mama responde por cerca de 25% dos casos novos a cada ano, no mundo e no Brasil. Em 2015, para o Brasil, são esperados 57.120 casos novos dessa doença. “O número é muito grande”, disse.Cristiane. Ela sabe que o projeto “Eu tenho peito” não vai resolver o problema. “Mas dá para amenizar bastante”.

A presidenta da associação disse que muitas mulheres que removeram as mamas não querem colocar próteses, “porque você passa por tanto processo doloroso que o seu psicológico opta por não fazer. E elas tendem a conviver com essa ausência (das mamas)”. Outras não têm elasticidade da pele para fazer o revestimento da prótese. Aquelas que escolhem fazer a reconstrução esbarram em duas situações, observou Cristiane Felix: “Ou você tem condições financeiras para comprar a prótese e pagar a equipe médica particular ou tem que cair no Sistema Único de Saúde (SUS), onde o tempo de espera é entre três a quatro anos”.

Por isso, ela decidiu pensar em algo “mediador”, que permita à mulher enfrentar o período de operação do tumor até a reconstrução, “que ela possa se olhar e enfrentar a ausência mamária, porque isso implica em não se aceitar, em problema de rejeição de marido, em não conseguir se reintegrar socialmente, em perda de trabalho”. Há um preconceito ainda grande no país em relação à mulher mastectomizada, destacou Cristiane. Ela lembrou que mama e cabelos são muito significativos para uma mulher.

O projeto “Eu tenho peito” quer implantar uma nova cultura para a mulher. Ela tem que entender que há um processo mediador e que pode se inserir novamente na sociedade. “Porque o que mata não é a doença, o diagnóstico, É o olhar social, é a discriminação social”. Por isso, o grande objetivo do projeto é trabalhar a autoestima das mulheres com câncer de mama. “Ela compreender que não é só um pedaço de mama, mas que é uma mulher por inteiro”.

Além disso, o projeto visa garantir oportunidades de trabalho para 40 mulheres, das quais 16 são assistidas pela Associação Mulheres Vitoriosas. Mais sete máquinas industriais foram doadas por outras instituições parceiras. A ideia de Cristiane é comercializar as peças da coleção em todo o Brasil. Para isso, foi criado um catálogo, para caracterizar o projeto de geração de emprego e renda, que pode ser acessado no endereço. A organização envia as peças via Sedex, para todo o território nacional.

As Informações são da Agencia Brasil

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